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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Quando frases inocentes se tornam perigosas

Talheres a postos, o casal Geraldo e Berenice aguarda ansioso a chegada do tão falado novo namorado da filha Belinha, que vem para o jantar.

Ding-dong!!!”

- É ele!!!

Belinha entusiasmada abre a porta e com um sorriso arreganhado anuncia:

- Pai, mãe, este é o Chico, meu novo namorado.

A mãe, com os olhos apertados de quem está sob o sol, analisa o rapaz e comenta:

- Nossa! Você não me é estranho...

- Ihhh, Berê, já começou? – Para o rapaz: - Não liga não, minha esposa tem mania de achar que conhece todo mundo. Entra.

Todos se sentam na sala de estar.

- Escuta, – prossegue o pai Seu nome é como mesmo?

- É Chico, pai. – responde a filha.

- Francisco, você quer dizer?

- É, pai.

- Francisco de quê?

- Francisco de Assis Pereira.

- Nossa!

- Que foi, Berê?

- Não... Nada.

- Agora que começou, fala, mulher!

- É que este nome...

- O que tem?

- Não me é estranho...

- Ah, pronto! Lá me vem você de novo. O que é que tem de mais o nome dele? Francisco de Assis... Como é mesmo filha?

- Francisco de Assis Pereira.

- Francisco de Assis Pere... Nossa!

- O que foi, Geraldo?

Geraldo se levanta e começa a andar pensativo pela sala. De repente pára e encara o rapaz que até o momento não disse uma palavra.

- Geraldo, você tá bem?

- Espera! – dá mais uma olhada no rapaz. – Não pode ser!

- O que não pode ser?

- Se não me falha a memória, este nome “Francisco de Assis Pereira” é o mesmo nome do...

- Maníaco do Parque. – responde Belinha.

A mãe meio sem graça diz:

- Que coincidência, não, filha?

- Não, mãe, não é coincidência, não. Ele É o Maníaco do Parque mesmo. Aliás, ex!

- AHHH!!! MEU DEUS!!! AH, MEU DEUS!!!a mãe se desespera.

- Minha filha, você enlouqueceu? Você não pode namorar este sujeito! Ele é um criminoso, um torturador, um assassino, um psicopata...

- Pai, como você é careta! – para o namorado: - Vem, Chico, vamos embora daqui. – Para os pais: Aprendam uma coisa nesta vidinha medíocre de vocês: “As pessoas mudam”. Sai, bate a porta e nunca mais volta.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

"Nem Morto!"



Dias atrás, um colega de trabalho chamado Vitor foi fazer leitura de luz numa cidade vizinha à Atibaia.

Chegando ao cemitério da cidade, descobriu que havia um relógio de energia elétrica dentro da sala de velórios, que estava fechada. O jeito seria entrar pelo portão do cemitério que ficava do outro lado do quarteirão.

Mas, quando Vitor já caminhava em direção ao seu destino, alguém com uma voz muito estanha o chamou:

- Ei, moço!

- Ai! (primeiro susto)

- Você vai marcar a leitura da luz aqui na sala de velórios?

- Vou sim. (virando-se e encarando a mulher) – Ai! (segundo susto)

- Eu abro pra você.

A sinistra mulher sacou do bolso um molho de chaves e abriu a porta. Em seguida, perguntou:

- Você vai tirar a leitura da minha casa também?

Se ele nunca havia visto aquela mulher na vida, como ele poderia saber onde ela morava? As pessoas andam assistindo muito “O Astro”... Além disso, com aquela aparência, era bem provável que ela morasse nas profundezas do inferno.

- Mas... Onde a senhora mora?

- Na Rua Belo Horizonte.

- Eu marquei luz lá ontem.

- Ué? Mas, você não entrou na minha casa. Eu tava lá. Tenho certeza! Eu tô de férias.

- Bom, provavelmente o relógio de energia da sua casa fica do lado de fora.

- Ah, mas na minha casa tem muitos outros relógios. Tem na sala, na cozinha, no QUARTO...

Foi nesse momento que Vitor pensou: “Mas, antes tivesse dado a volta, atravessado todo o cemitério e cruzado com uma alma penada...” Terminou a leitura e agradeceu:

- Obrigado, senhora!

- Moço, você é quem vai tirar leitura aqui sempre?

- Acho que sim.

- Ai, que bom! Aqui nessa cidade só tem homem feio. Como é o seu nome?

- Vitor.

- O meu é Adélia. Prazer! Sou coveira.

E quando ele já estava a certa distância do local, ela completou:

- Volte sempre aqui, viu!

E Vitor respondeu mentalmente: “Nem morto!”


sábado, 23 de abril de 2011

O Bêbado e O Leiturista



Sexta-feira passada, estava fazendo leitura de luz num bairro “carente” aqui da cidade quando um tiozinho bastante bêbado chegou pra mim e pediu:

- Ô gente boa, vou ser bem sincero contigo, você pode me arranjar R$1,00 pra eu tomar uma cachaça pra curar meu coração?

- Vou ver se tenho. – respondi.

Se ele tivesse me pedido dinheiro pra comprar leite, por exemplo, eu teria dado a ele uma moeda falsa. “Olho por olho, dente por dente.” Mas, como ele foi sincero e eu não tinha dinheiro suficiente pra lhe pagar um terapeuta, dei um real mesmo.

Depois de pegar a moeda ele continuou:

- Eu trabalho de pedreiro pro João, você conhece?

- Não conheço.

- Então, ele tinha que me pagar hoje, mas, ele segura o meu pagamento pra eu não beber. Na verdade, faz mal beber muito né?

- Uma cachacinha só de vez em quando não tem problema. Agora eu tenho que ir.

Atravessei a rua e continuei trabalhando. O calor estava insuportável e o bafo de álcool dele era de matar. Tivesse batido um raio de sol na saliva dele e com certeza ele tinha virado um dragão.

- Ei, mas, como eu faço pra te pagar depois?

- O senhor me acerta no mês que vem.

Ele riu:

- Viu, mas, como é que você vai dando dinheiro assim pra quem você não conhece?

Aí eu parei, olhei bem sério pra ele e disse:

- Se o senhor não quiser, eu pego de volta.

E o bêbado rindo muito:

- Hahahaha! Ai não né!

E saiu andando mais rápido que o Flash enquanto alguns vizinhos desocupados riam daquela piada ao vivo.


sábado, 16 de outubro de 2010

Ave! Que mico!




Há uma casa em que faço leitura da luz todos os meses e a pessoa que me atende ao interfone tem um tom de voz tão sombrio que me leva a pensar se ela não é irmã do Darth Vader.

Depois que a tal mulher desliga o interfone, outra voz fica gritando lá de dentro:

- Quem é?

- É o leiturista da luz! (eu respondo)

- Quem é?

- Leitura de luz!!! (já falando mais alto)

- Quem é?

“É o Dunha! Cacete!”

Depois da terceira vez, a minha paciência começa a se esgotar. Se a pessoa quer saber “quem é?” por que é que ela não vai me atender ao invés de ficar gritando?

Esse mês, devido ao atraso do meu pagamento eu estava mais mau-humorado que a mulher do interfone. Cheguei nessa casa e ela atendeu:

- Quem é? (com aquela voz de quem queria matar um)

- Leitura da luz! (com aquela voz de quem queria matar também)

- Já vou! (com aquela voz que indicava que esse um era eu)

E aí, aquela outra voz começou com a palhaçada:

- Quem é? Quem é? Quem é?

Tentando me acalmar, respirei tão forte que colou um pedaço de asfalto no pêlo do meu nariz. Estava prestes a mandar aquela pessoa pra PQP!

Entrei na casa e enquanto fazia a leitura percebi que a voz continuava perguntando: - Quem é? Quem é? Quem é?

Como dois canos de uma arma, mirei meus olhos na direção em que vinha a voz e disparei: - Meu Deus do céu! É a leitura da luz!

Foi aí que percebi que havia pagado o maior mico.

A dona, ou melhor, o dono daquela voz era um papagaio!

Pelo menos arranquei um sorriso da irmã do Darth Vader.



sábado, 7 de agosto de 2010

Quer pagar quanto?

Todo mundo já deve ter passado em frente à pelo menos uma casa e viu que em cima do relógio de energia elétrica havia algumas garrafas pet cheias de água.

Diz a lenda, que quando você coloca garrafas d’água em cima do relógio de luz, a sua conta de energia vem mais barata.

Já me perguntaram várias vezes se isso é verdade. E eu respondi:

- Minha senhora, se fosse verdade, eu teria mandado instalar o relógio da minha casa embaixo da caixa d’água.

Dias atrás, fui fazer leitura numa recém aberta casa de massagens. Entrei no local e nada de encontrar o relógio.

- Por favor, onde fica o relógio de luz de vocês?

- Atrás daquela portinha. – respondeu um japonês.

Quando abri a tal portinha, surpresa: o relógio ficava dentro de um banheiro!

Mais exatamente entre o vaso sanitário e a descarga de cordinha. Ainda bem que ninguém havia usado o recinto, pois, a tampa estava levantada.

Como os donos do lugar eram orientais, comecei a pensar se essa mania de colocar objetos com água em cima do relógio de luz não teria uma explicação vinda do Feng Shui.

Mas, falando sério... há um jeito sim das garrafas d’água diminuírem a nossa conta de luz:

A gente coloca a garrafa cheia de água em cima do relógio de luz. Passa um moleque maloqueiro e joga uma pedra na garrafa que estoura e derruba toda a água. O relógio sofre um curto circuito, fica sem energia elétrica, a gente não manda arrumar e consequentemente a conta abaixa.

Simples!

Outra coisa bastante interessante que as pessoas colocam dentro do relógio de luz: santinhos de Santo Expedito, o santo das causas urgentes e impossíveis!

Será que abaixar a conta de luz é tão impossível assim?

Tudo bem, cada um com sua crença. Mas, será que não seria mais fácil economizar do que pedir ajuda pro santo? O que ele tem a ver com isso?  Não foi ele que usou a luz!

O fato é que a maioria das pessoas acredita que a culpa do valor alto da conta é do leiturista.

Você chega pra marcar a luz numa casa. Na porta há um tiozinho lavando o carro. Ele vê você, pára o que está fazendo e começa o interrogatório:

- Oh, amigo! Você tá conseguindo ver a leitura direito?

- Sim.

- Mas, a minha conta tá vindo muito alta.

- Há quanto tempo isso está acontecendo?

- Faz 6 meses que a conta tá vindo cara.

- E o senhor acha que eu estou errando a leitura há 6 meses? E sempre pra mais?

- Pra menos que não ia ser, né!?

- Ah, mas, então, o senhor acha que eu estou errando de propósito?

- Não... não tô falando isso... mas, é que quando vinha outro leiturista aqui medir, ela vinha mais barata.

- Mas, senhor, faz 5 anos que eu venho fazer leitura da luz aqui e nunca tirei férias.

- Espera aí! Você disse leitura da luz?

- Sim.

- Ah, não, não! Eu tô falando da conta de água...

Detalhe: enquanto o cara falava com você, a mangueira que ele usava pra lavar o carro ficava aberta, jorrando água a vontade na calçada.

E depois os leituristas é que são os culpados!


sábado, 31 de julho de 2010

A desgraça número 3




A desgraça número 3 na vida do leiturista de luz é... CHUVA! (Veja AQUI as outras 2).

Imagina a situação:

Você é leiturista de luz. Acorda na segunda-feira de manhã e descobre que está chovendo. Não há escolha: veste o uniforme, a capa de chuva por cima e a mochila pendurada de lado. Segura o guarda-chuva e o aparelho de leituras na mesma mão, porque na outra, você precisa segurar a canetinha pra digitar as leituras.

O vento é tão forte que vira o guarda-chuva do avesso 3 vezes seguidas, o que é o suficiente pra quebrar duas varetas e também pra você sentir vontade de quebrar aquele chinês que te garantiu que o guarda-chuva dele era bom.

Assim que o guarda-chuva quebra, a chuva aumenta muito, lógico! Você procura um lugar pra se esconder, mas, não há um só toldo ou telhado que possa te servir de abrigo naquela rua.

Pra melhorar, a rua é de terra.

O jeito é continuar trabalhando.

Você abre a tampa de um relógio pra fazer a leitura e ele está totalmente embaçado por causa da chuva.

Na casa seguinte, o relógio de energia fica dentro da garagem e você tem que olhar a leitura pelo furo no portão. Impossível! Por causa do tempo chuvoso, a garagem está muito escura e não dá pra enxergar a leitura. Você toca a campainha, mas, ninguém está em casa.

Você começa pensar: “Meu Deus, quantas leituras eu vou ter que pegar quando voltar aqui amanhã?”

Não devia ter perguntado!

À sua frente há uma sequência de pelo menos 15 casas com relógio de luz digital. Quando você chega no primeiro deles pra marcar a luz, dá um raio e acaba a luz da rua. Consequentemente, os relógios digitais se apagam.

A chuva fica cada vez mais forte. Pra atravessar a rua sem molhar os pés é quase impossível: a enxurrada é mais larga que o Rio Amazonas.

Só há duas opções: vestir um escafandro e mergulhar ou abrir o guarda-chuva e voar feito a Mary Poppins.

Como seu guarda-chuva está quebrado e você não tem um escafandro, você arrisca dar um salto sobre a água.

Você cai em cima de alguma coisa gelatinosa. Olha pro chão e descobre que matou um lambari com os pés.

O temporal é tão forte que a impressão que se tem é de que a qualquer momento a Arca de Noé vai cruzar a esquina.

Sua roupa está encharcada e pesa mais que costeiro de travesti rica no Carnaval do Rio.

A cada segundo de trabalho, você tem mais certeza de que odeia chuva!

Na última casa da rua, o relógio fica do lado de dentro. Você bate no portão e uma empregada atende:

- Pois não!

- É a leitura da luz.

- Só um minuto.

A empregada abre o portão. Lá de dentro, a dona da casa, enrolada num edredom, tomando café quente, beliscando bolachinhas amanteigadas, estirada numa “poltrona do papai”, diz:

- Oi, moço. Chuvinha boa, não?

Se controlando pra não mandar ela tomar no meio do rabo, você diz:

- A senhora me desculpe, mas, pra mim não tá boa não!

- Que isso, moço?! Fazia mais de dois meses que não chovia. Pense nos pobres agricultores. A gente não pode ser egoísta. Temos que nos colocar no lugar dos outros.

“Temos que nos colocar no lugar dos outros”. É brincadeira?

Você agradece e vai embora.

Claro, depois dessa última leitura é óbvio que a chuva pára. Quando você coloca os pés na calçada, ouve a “madame” gritar lá de dentro:

- Ai, não acredito!

- O que foi, senhora? – a empregada pergunta.

- A energia elétrica voltou de repente e pifou a minha televisão nova de 72 polegadas! CHUVA DESGRAÇADA! AHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Pois é: chuva nos olhos dos outros é refresco!






terça-feira, 20 de julho de 2010

Sem Noção - 3







Tem gente que fala cada absurdo que eu fico me perguntando se a pessoa tá falando sério.

Antes de ser leiturista de luz, eu trabalhava numa fábrica de fios elétricos (que coincidência, não?).

Entrava as 22:00h e saía as 7:00h do dia seguinte. O que significa que eu tinha que (tentar) dormir de dia.

Como eu era solteiro e morava com meus pais, não podia reclamar das visitas constantes que eles recebiam no horário que eu tinha pra dormir.

Um dia aparecia aquele meu tio gordo, dono de uma potência vocal que humilharia o Pavarotti.

Num outro, aquela vizinha sempre bem-humorada, cujo riso era mais alto que o piado de 20 gralhas com TPM brigando por comida.

Sem contar a minha irmã que entrava no quarto de 10 em 10 minutos pra passar creme nas mãos.

Graças a minha paciência “dalailâmica” eu não dizia nada. Afinal, o quarto também era dela. Só que chegou um dia, em que não aguentei mais e com muita educação falei o seguinte:

- Puta que o pariu! Será que dá pra parar de abrir e fechar esta merda desta porta?!

E ela me respondeu:

- Você é um ignorante! Não vê que eu tenho problema de pele ressecada?

E será que ela não via que eu precisava dormir?

Como gritar e falar palavrão não surtiu efeito, resolvi usar a técnica da argumentação:

- Já que você precisa passar o creme nas mãos quase toda hora, por que você não o coloca lá dentro do banheiro, ou na cozinha, ou na sala, ou na casa do cara...

- Você é um chato!

Depois, a minha mãe diz que eu tenho mania de perseguição.

Num dia de muita raiva, cheguei a pensar seriamente em substituir o creme da minha irmã por ácido clorosulfônico. Mas, depois, pensei bem e concluí que não valeria a pena: o frasco de creme seria corroído em questão de segundos.

Definitivamente, ficar sem dormir é algo que não faz bem à saúde.

Cheguei a emagrecer 17 quilos. Vivia estressado, irritado e o meu mau-humor crônico era comparável ao mau humor do meu vizinho (homossexual 110% passivo como ele mesmo se define) no dia em que ele foi impedido de participar da Parada Gay por causa de um problema de hemorróida inflamada.

Até que um dia, meu primo, que hoje é o meu chefe, me convidou pra trabalhar com ele:

- Apareceu uma vaga. Tá a fim de ser leiturista?

- Tô.

- Tem que começar amanhã.

- Tão rápido? Mas, eu preciso de pelo menos uns dias pra sair lá da fábrica.

- Se você quiser, dá pra trabalhar nos dois empregos: de dia na leitura e de madrugada na fábrica.

- Oloco! Não dá não!

Aí, ele me veio com essa:

- Por que não? Você dorme?

Como assim “você dorme?”?

- Lógico que durmo, eu não sou robô.

- Ué. Dorme de sábado.

Pausa para um adendo:

“Angelão era moto taxista. Costumava varar noites acordado trabalhando sem parar, à base de rebite de caminhoneiro, álcool e pó. Pó que ele passava no rosto todos os dias pra tentar disfarçar a cara de zumbi. Certa vez, ele ficou 3 dias seguidos trabalhando sem dormir. Foi parar no hospital com pressão alta e quase morreu. Agora, se nem ele que era sem noção aguentou ficar sem dormir, imagina se eu, que necessito dormir pelo menos 6 horas por noite, iria conseguir?”

Então, eu larguei a fábrica de fios e fui ser leiturista.

E foi então que eu fui ter contato com gente ainda mais sem noção.

Havia uma casa que dava pra ver a leitura da luz do lado de fora. Mas, a sua dona, resolveu colocar um portão de chapa que tampava a visão. Eu disse a ela então:

- Se a senhora fizer um furinho no portão, do tamanho de uma moeda de 10 centavos, dá pra ver a leitura sem precisar entrar.

- Ah, tá bom, vou mandar fazer.

No mês seguinte, quando cheguei em frente a casa tomei um susto: o furo no portão era tão grande que parecia ter sido feito por um tiro de bazuca. Daria pro Jô Soares passar folgado pelo buraco. E a dona da casa veio me perguntar:

- Oi moço. Precisa entrar?

- Não, senhora. Dá pra ver de fora.

- Se precisar, eu abro o portão.

- Não, não precisa.

O pior é que isso já faz 2 anos. E todas as vezes que eu vou fazer leitura lá, ela me pergunta se dá pra ver de fora.

Por que será que ela não acredita em mim?

Pra completar, hoje, uma criança chegou pra mim na rua e disse assim:

- Moço, você vai cortar meu relógio?

- Não. Eu não corto relógio. Eu só faço leitura.

- Mas, porque os “seus amigos” vivem cortando o relógio da minha casa?

- Eles só cortam se não pagar a conta.

- Tá louco! Vocês só pensam em dinheiro!

Virou as costas e foi embora.

Tô começando a achar que o verdadeiro sem noção dessa história toda sou eu, que continuo nessa vida de leiturista.

Ai!

sábado, 27 de março de 2010

Estranhos

(sugestão da Isabela: pessoas estranhas”)


Segunda-feira parecia ser mais um dia comum na minha jornada de leiturista de luz.

Parecia!

Alguns dos seres mais estranhos de Atibaia resolveram sair de suas tocas pra falar comigo.

Parei em frente a uma casa que ficava no fundo de um terreno e estava quase encoberta pelo mato. Tirei alguns galhos e folhas da frente do relógio de luz e quando anotava a leitura, percebi, com o canto dos olhos, uma movimentação suspeita atrás de uma moita.

Olhei pro lado e vi um homem que aparentemente era velho, mas não muito, uns 115 anos no máximo. Ele vestia uma blusa com touca e era muito branco. Tomei um baita susto! Não porque ele se parecia com o Mun-há antes de se transformar, mas porque estava fazendo um calor de no mínimo 40 graus!




- Eu estou segurando esta foice, mas não se assuste! Eu percebo quando uma pessoa é boa e quando é ruim. – ele disse.

Espera aí! Um ser de touca preta com uma foice na mão surge, de repente, na minha frente e ele ainda quer que eu não me assuste?



E pra piorar, olha o que ele me disse:

- Meu vizinho da esquina era um homem muito bom. Esses dias, ele foi morto na porta de casa com 3 tiros! Quer dizer, não adianta ser bom, porque quando chega a sua hora, você não escapa!

Percebi que já havia passado da minha hora de sair dali. Velho maluco!

- Preciso ir. O senhor não me leve a mal, mas, ainda tenho 500 leituras pra fazer hoje.


- Então, você ainda não almoçou, meu jovem?


- Não, eu costumo almoçar bem tarde, lá pelas 2 ou 3 da tarde.


O velho consultou seu relógio de corrente de ouro e disse:

- Ainda é 1 e 15h. Tem razão. Ainda não está na sua hora!

O quê? Zarpei dali imediatamente!

Um casa depois, um homem baixinho e troncudo atendeu a porta.

- O que você quer?


- Boa tarde! Vim fazer a leitura da luz, senhor.

- Como? Você já veio no sábado!



- Hã!!!???


- Minha mulher falou que você veio no sábado!

- Não, senhor. A leitura está marcada pra hoje. Acho que quem veio no sábado foi o pessoal da inspeção que usa o uniforme igual ao nosso e...

- Não! A minha mulher falou que foi você que veio! Tava de uniforme e com um aparelho na mão igual esse daí que você tá segurando.


Eu sabia que ele estava enganado, mas tive que ser paciente. Não seria louco de arrumar confusão com um homem que era capaz de discutir comigo ao mesmo tempo em que quase estrangulava o seu Pit Bull com uma das mãos.

Ficamos uns 20 minutos naquilo. E o homem foi tão convincente nos seus argumentos de que eu havia estado ali no último sábado, que eu comecei a ficar confuso:

“Meu Deus, será que eu vim aqui no sábado e depois morri de repente? Vai ver é por isso que eu não estou lembrando! Bem que eu achei que conhecia aquele tiozinho da foice de algum lugar! Não, não é nada disso! Deve ser este Sol que está me fazendo ter alucinações!”

- O senhor tem a conta do mês passado aí?

- Tenho. Vou pegar.



Quando o homem voltou, mostrei pra ele no alto do canto esquerdo da conta de fevereiro que a próxima leitura estava marcada para o dia 22 de março, aquele dia! Ou seja, nem eu, nem nenhum outro leiturista havíamos estado lá no sábado!

Se bem que quem atendeu a porta foi a esposa do cara.

E o
FEIO mora ali perto...

No final do setor encontrei a pessoa mais esquisita de todas. Era uma mulher que falava muito enrolado e rápido, de modo que eu só conseguia entender algumas palavras. O que quase gerou uma confusão.

No momento em que eu fazia a leitura em sua casa, ela saiu da casa da vizinha e perguntou se eu gostava de pão caseiro. Respondi que sim. E, então, ela começou a abaixar o decote da blusa até quase um peito pular pra fora.

- Senhora! Pelo amor de Deus! – disse virando o rosto envergonhado.

Ela então ergueu a blusa pra me mostrar a barriga e fez a única pergunta que eu entendi claramente:

- O senhor é casado?


Comecei a pensar: “O que será que uma mulher que me mostra os seios e a barriga, depois pergunta se eu sou casado, pode estar querendo comigo?”

Não havia mais dúvidas: o povo daquele bairro, vizinho do Imperial, estava me confundindo com o FEIO.

De repente, olhei para os seus braços e percebi que estavam com a pele toda queimada.

Um homem, provavelmente o seu marido, apareceu na janela e disse:

- Rosana! O óleo já está fervendo!


Teria sido uma ameaça? Naquele momento entendi tudo: aquele animal do marido dela havia pegado ela com outro homem e tinha jogado óleo fervendo nos dois! Antes que sobrasse pra mim, deixei a mulher falando sozinha.

Um quadra depois, acabei ouvindo sem querer a conversa de duas mulheres e descobri toda a verdade.

MULHER 1: - Você ficou sabendo, coisa?

MULHER 2: - O quê? Me conta!

MULHER 1: - A Rosana, aquela mulherzinha da rua debaixo que faz pão caseiro...

MULHER 2: - O que tem ela?

MULHER 1: - Ela tava fazendo o recheio do pão doce e o fogão dela explodiu. Queimou tudo o peito e a barriga dela!

MULHER 2: - Que horror!

Horror foi essa segunda feira: 694 leituras, calor insuportável e uma dúzia de pessoas estranhas.

Ninguém merece!


sábado, 19 de dezembro de 2009

Varal


Há um bairro onde faço a leitura da luz em que boa parte das casas não tem quintal e as pessoas colocam as suas roupas pra secar na rua.



Certo dia, fui marcar a luz numa dessas casas e havia um varal cheio de roupas bem em cima do relógio. Marquei a leitura e quando caminhava para casa seguinte, ouvi uma mulher chamar:



- Moço! Moço! Você tá levando a minha roupa!



Percebi que havia algo enroscado no meu boné. Olhei: era uma minúscula calcinha pink!



Não sei por que mas, a minha vontade de rir sumiu assim que o "gigantesco" marido da moça saiu lá fora pra ver o que tava acontecendo.



Mas, pior aconteceu com um colega meu, o Claudio.



Claudio chegou numa casa pra fazer a leitura da luz. Nessa casa, há um muro com um buraco de onde é possível ver o relógio de luz e tirar a leitura.



Nesse dia, porém, havia um varal com um monte de roupa cobrindo o relógio.



Claudio pensou em enfiar a mão pelo buraco e afastar a roupa. Mas, teve medo de que do outro lado houvesse um cachorro esperando pra dar o "bote".



Tocou a campainha da casa. Uma voz lá de dentro gritou:



- Quem é?



- Leitura da luz!



- Ué!? E não dá pra você ver de fora?



- Dá. Mas, hoje tem um monte de roupa na frente do relógio.



Havia muita roupa mesmo. Tanto, que nem a própria mulher conseguia encontrar o relógio.



- Moço, onde que tá o relógio?



E Claudio falou com a boca no buraco:



- Aqui no canto senhora!



- Aqui?



- Isso! Agora é só a senhora levantar a saia.



Nesse dia, Claudio não conseguiu fazer a leitura. Mas, também, como é que ele ia saber que a mulher do outro lado era crente?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

ATENÇÃO: Ninguém presta atenção!




Segunda-feira. 8 da manhã. Mais uma jornada semanal de leituras de luz está começando. Logo na primeira casa do roteiro, é preciso entrar. O padrão de energia elétrica fica do lado de dentro. Como não há campainha, bato palmas e solto o velho bordão:

- Leitura da luz!

Uma mulher responde da janela:

- Já vai!

Ela aparece, anos-luz depois. Pra não perder o costume, vou logo dizendo:

- Bom dia, senhora. Vim fazer a leitura da luz.

Ela abre o portão e responde:

- Bom dia! Pode entrar.

Em seguida, ela se abaixa para limpar o hidrômetro e diz:

- Nossa! Que sujeira! Como vocês conseguem enxergar a leitura da água desse jeito?

- Não é leitura da água, senhora. É leitura da luz.

- Ah, tá.

Lá de dentro, o marido da mulher se manifesta:

- Que que tá acontecendo aí, Bem?

- O moço veio medir a água.

- Não é água, senhora. É luz!

Termino a leitura e agradeço a mulher. Ela entra e quando estou indo embora, aparece o marido com uns 10 quilos de envelopes nas mãos.

- Ei, grande! Dá uma chegadinha aqui.

- Pois não!

- Já falei pro outro carteiro e vou falar pra você, também: esse João da Silva - mostrando o nome marcado num dos envelopes - é o cara que morava aqui antes de mim. Agora, que ele se mudou, não quero mais que vocês fiquem entregando estas porcarias na minha casa!

- Mas, senhor...

- Ah, não quero saber! Isso é um problema de vocês. Toma! Leva essas merdas de volta pro correio.

- SENHOR!

O homem se assusta.

- Eu não sou carteiro. Sou o leiturista da luz!

- Ah, tá. Mas, você também não fala nada!

O homem finalmente entra. Quando me viro pra seguir o meu caminho, aparece uma mulher correndo desesperada:

- Moço! Por favor, não me multa!

- O quê?

- Eu sei que nesse lugar é proibido estacionar, mas é que eu só parei por causa de uma emergência, tive que ir correndo até à farmácia comprar um absorvente e...

- Moça! Calma! Eu não sou guarda de trânsito. Sou o marcador da luz!

- Ai, desculpa moço. Que vergonha! Desculpa! Ai! Desculpa...


Deixo ela meio que falando sozinha. Quando vou continuar as leituras, uma garota que está chegando à primeira casa me chama:

- Moço!

- Ooooooooooi! - já sem paciência.

- É você que veio consertar a Internet?

"Não! Eu sou um homem bomba disfarçado que veio explodir sua casa a mando do Bin Laden, de preferência abraçado a você!"

- Não, mocinha! Eu sou o marcador de luz!

-Ah, tá.

O dia todo segue com acontecimentos desse tipo. Depois da útima leitura, dou um suspiro profundo e pegunto aos Céus:

- Meu Deus, por que as pessoas nuncam prestam atenção em nada? Por que nuncam ouvem as outras? Por que há tantos enganos nessa vida?

De repente, surge por de trás de uma árvore um homem careca, barrigudo e com uma roupa muito estranha. Ele começa a explicar todas as minhas perguntas. Imediatamente, eu o reconheço, só não entendo a sua presença ali.

Depois que ele pára de filosofar, eu não resisto e pergunto:

- Desculpa! O senhor não é o Pandite, aquele sacerdote indiano da novela das 8?

- Tic!

- E o que o senhor faz por aqui?

- Are-baba! Aqui não é o caminho das Índias?

- Não. É Avenida Lucas Nogueira Garcês. Atibaia!

- Puta que o pariu! Entrei na história errada!

Tô falando que ninguém presta atenção !

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Preconceito



Entre as maiores dificuldades enfrentadas no trabalho por nós, os leituristas de luz, destacam-se os cães.

Não os cães vira-latas que andam em bando. Mas os furiosos cachorros de raça cujos donos insistem em deixar soltos.

Como é de costume, ao chegar para fazer a leitura numa casa que tem o padrão de energia do lado de dentro, batemos palmas e gritamos:

- Leitura da luz!

- Pode entrar senhor, o portão tá aberto.

- Sim, mas o cachorro está solto.

-Ah, ele não morde!

Só mastiga, imagino.

- Desculpe, mas se a senhora não prendê-lo, eu não entro!

Depois de repetir umas 15 vezes que o cão é bonzinho, obediente e tudo o mais que uma mãe pode desejar de um filho, ela finalmente desiste e prende o animal.

Mas, quando estou entrando na casa, ela recomeça:

- Senhor, quando você vir marcar a luz, pode entrar sossegado porque meus cachorros não mordem e...

Putz, de novo! 16 vezes, agora... Peraí, ela disse "meus" cachorros?

Quando olho para baixo, percebo uma fêmea albina de Pit Bull me cheirando. Cheira os pés. Cheira as mãos. Cheira o... ai, aí não. Acabei de casar, coitada da minha esposa...

- Maia, vem já com a mamãe!

E a Maia, vai. Graças a Deus! Ou a alguma entidade indiana, sei lá.

E eu vou em seguida. Ou pelo menos tento. Minhas pernas parecem feitas de gelatina.

Por educação, tento dizer obrigado (embora a vontade fosse dizer um palavrão), mas a minha voz não sai.

As mãos tremem tanto que é possível tirar um samba de partido alto no pandeiro.

Vagarosamente, começo a caminhar em direção à saída, pensando inconformado: "Caramba, prendeu o Mastin Napolitano, mas deixou solto o Pit Bull."

E quando falta um passo para sair da casa, completo o pensamento, aliviado: "ainda bem que era apenas um filhote".

Nesse exato momento, porém, eis que surge às minhas costas um terrível ser!

E ele morde, com gosto, o meu calcanhar!

É, definitivamente não se deve ter preconceito nem com os animais. Pois, o terrível ser era um Poodle Toy.