Era 23h45min quando o telefone tocou. Do outro lado da linha, uma voz rouca e triste de mulher passou o endereço de onde ela estaria esperando.
O taxista Agenor, que parecia ter um GPS na cabeça, estranhou:
- Tem certeza? Esse endereço que você me passou é do cemité . . .
Tarde demais! Ela já havia desligado.
“Vai ver ela está num velório.” – pensou.
Exatamente a meia-noite, Agenor chegou ao local marcado. Não havia ninguém além de uma mulher muito branca, mas, tão branca, que provavelmente tomava banho com Vanish.
- Foi a senhora quem pediu um táxi?
- Sim, mas, não me chame de senhora. Senhora está no céu. E eu ainda vago por aqui.
Agenor, que desceu para abrir a porta do carro para a passageira, sentiu um calafrio.
Mas não de medo, de frio mesmo. Estavam em pleno mês de junho.
- Pra onde você vai?
- Avenida da Saudade.
- Que coincidência, eu moro lá.
Pelo retrovisor, Agenor não conseguia tirar os olhos daquela mulher. Ela tinha uma “comissão de frente” que causaria inveja na Mulher Melão. Mas, não era apenas por isso. Havia algo de misterioso em seu olhar.
Pra puxar conversa, o taxista fez um comentário “muito original”:
- Tá frio hoje, não?
- O senhor já tocou a pele de um cadáver?
- Hã?!
- São mais frios que as noites de inverno!
- A senhora, digo, você já tocou em algum?
- Sim. No meu gato preto que morreu, o Lúcifer.
- Puxa! E ele morreu como? Estava doente?
- Não. Eu o matei.
- Matou?!
- Atropelei-o com o cortador de gramas.
- Caramba?!
- Sabe, quando o peguei no colo ele ainda estava quente. Mas, quando o enterrei, 15 dias depois, parecia uma pedra de gelo.
- Nossa! Mas, porque você demorou tanto para enterrá-lo?
- É que eu fiquei a procura de um empalhador e quando finalmente o encontrei, ele disse que pelas condições em que o gato se encontrava, não seria possível empalhá-lo. O pobrezinho estava retalhado.
- Vixe! E você guardou o gato aonde esse tempo todo?
- Num saco plástico dentro do congelador.
Embora fosse fã do quadro “Lendas Urbanas” do Programa do Gugu, Agenor não acreditava em assombrações. Então só restavam duas alternativas: ou ele estava vendo e ouvindo coisas por causa do estresse de trabalhar muito e dormir pouco, ou aquela mulher era uma maluca.
Maluca ou não, ele estava cada vez mais interessado nela.
Agenor, embora fosse casado, não deixava passar nunca a oportunidade de dar em cima de uma passageira que lhe interessasse. E ele, que não era bonito, mas, tinha um xaveco fenomenal, na grande maioria das vezes conseguia alcançar o seu objetivo.
Depois de ouvir a história do gato, ele começou a usar sua lábia pra tentar seduzir a moça branquela.
Logo que entraram na Avenida da Saudade, ela gritou:
- Pare aqui!
- Aqui? Na casa 14?
- Sim!
- Você deve tá brincando?
- Por favor, chega desse seu papo furado! Abra a porta pra eu descer.
- Mas, aí é a minha casa!
A moça ficou vermelha feito um sagu de framboesa.
- Ahhhhhhhh! Sua danadinha! Já entendi: você quer conhecer a minha casa? Não é?
Sem saber o que responder, ela disse:
- É!
- Mas não vai dar. A Celinha, minha mulher, está aí. Mas, posso te mostrar a garage se você quiser! Vamo lá?
Agenor partiu pra cima da branquela que desceu correndo e gritando do carro:
- Por favor, não!
- Shiuuuuu! Calma! Você quer acordar os vizinhos? Vem aqui! (tentando beijar a moça)
- Não!
- Você não disse que queria?
- Não posso!
- Ah, vem?
- Não, me deixa!
- Escuta aqui (impaciente e segurando a moça pelo braço) – Chega de fazer doce! Porque você não quer?
- Não posso!
- Não pode por quê?
- Porque... Porque... Eu sou... Travesti!
- O quê?!
Agenor largou imediatamente a boneca. Em seguida fechou os punhos e ameaçou dar um soco na cara dela. Mas, acabou desistindo.
- Bem que eu desconfiei. Onde já se viu uma mulher dessa altura? E esses peitos siliconados, então? Suma da minha frente antes que eu arrebente a tua fuça!
A branquela saiu correndo com seu vestido esvoaçante e sem os saltos para ir mais depressa.
Agenor entrou no carro e disse pra si mesmo:
- Quase beijei um travesti! Que horror! Antes fosse uma assombração!
Mas, Agenor nem imaginava que aquela não era a verdade!
A moça alta e branquela não era um travesti, nem tampouco usava silicone.
Ela se chamava Tamiris Brown, era uma norte-americana de 1,93 m de altura e a mais nova pivô do time de basquete da cidade de Itapopoquinha do Norte.
Desde que chegara ao Brasil, há três anos, Tamiris, todas as vezes que precisava sair à noite, usava o método de falar como se fosse maluca, aliado ao seu tamanho incomum para evitar que os homens de todos os tipos se aproximassem.
Já havia sido xingada muitas vezes por isso, de coisas como: bizarra, alma penada, Gasparzinha, Loira do Banheiro entre outros. Mas, era a primeira vez que alguém a havia chamado de “travesti de silicone”.
Mas, não era por isso que ela se encontrava chorando numa cabine telefônica. E sim, porque não havia se encontrado com sua amante tão amada naquela noite: Celinha.
- E aquele homem ainda queria me beijar! Ai que horror!!!
