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terça-feira, 20 de julho de 2010

Sem Noção - 3







Tem gente que fala cada absurdo que eu fico me perguntando se a pessoa tá falando sério.

Antes de ser leiturista de luz, eu trabalhava numa fábrica de fios elétricos (que coincidência, não?).

Entrava as 22:00h e saía as 7:00h do dia seguinte. O que significa que eu tinha que (tentar) dormir de dia.

Como eu era solteiro e morava com meus pais, não podia reclamar das visitas constantes que eles recebiam no horário que eu tinha pra dormir.

Um dia aparecia aquele meu tio gordo, dono de uma potência vocal que humilharia o Pavarotti.

Num outro, aquela vizinha sempre bem-humorada, cujo riso era mais alto que o piado de 20 gralhas com TPM brigando por comida.

Sem contar a minha irmã que entrava no quarto de 10 em 10 minutos pra passar creme nas mãos.

Graças a minha paciência “dalailâmica” eu não dizia nada. Afinal, o quarto também era dela. Só que chegou um dia, em que não aguentei mais e com muita educação falei o seguinte:

- Puta que o pariu! Será que dá pra parar de abrir e fechar esta merda desta porta?!

E ela me respondeu:

- Você é um ignorante! Não vê que eu tenho problema de pele ressecada?

E será que ela não via que eu precisava dormir?

Como gritar e falar palavrão não surtiu efeito, resolvi usar a técnica da argumentação:

- Já que você precisa passar o creme nas mãos quase toda hora, por que você não o coloca lá dentro do banheiro, ou na cozinha, ou na sala, ou na casa do cara...

- Você é um chato!

Depois, a minha mãe diz que eu tenho mania de perseguição.

Num dia de muita raiva, cheguei a pensar seriamente em substituir o creme da minha irmã por ácido clorosulfônico. Mas, depois, pensei bem e concluí que não valeria a pena: o frasco de creme seria corroído em questão de segundos.

Definitivamente, ficar sem dormir é algo que não faz bem à saúde.

Cheguei a emagrecer 17 quilos. Vivia estressado, irritado e o meu mau-humor crônico era comparável ao mau humor do meu vizinho (homossexual 110% passivo como ele mesmo se define) no dia em que ele foi impedido de participar da Parada Gay por causa de um problema de hemorróida inflamada.

Até que um dia, meu primo, que hoje é o meu chefe, me convidou pra trabalhar com ele:

- Apareceu uma vaga. Tá a fim de ser leiturista?

- Tô.

- Tem que começar amanhã.

- Tão rápido? Mas, eu preciso de pelo menos uns dias pra sair lá da fábrica.

- Se você quiser, dá pra trabalhar nos dois empregos: de dia na leitura e de madrugada na fábrica.

- Oloco! Não dá não!

Aí, ele me veio com essa:

- Por que não? Você dorme?

Como assim “você dorme?”?

- Lógico que durmo, eu não sou robô.

- Ué. Dorme de sábado.

Pausa para um adendo:

“Angelão era moto taxista. Costumava varar noites acordado trabalhando sem parar, à base de rebite de caminhoneiro, álcool e pó. Pó que ele passava no rosto todos os dias pra tentar disfarçar a cara de zumbi. Certa vez, ele ficou 3 dias seguidos trabalhando sem dormir. Foi parar no hospital com pressão alta e quase morreu. Agora, se nem ele que era sem noção aguentou ficar sem dormir, imagina se eu, que necessito dormir pelo menos 6 horas por noite, iria conseguir?”

Então, eu larguei a fábrica de fios e fui ser leiturista.

E foi então que eu fui ter contato com gente ainda mais sem noção.

Havia uma casa que dava pra ver a leitura da luz do lado de fora. Mas, a sua dona, resolveu colocar um portão de chapa que tampava a visão. Eu disse a ela então:

- Se a senhora fizer um furinho no portão, do tamanho de uma moeda de 10 centavos, dá pra ver a leitura sem precisar entrar.

- Ah, tá bom, vou mandar fazer.

No mês seguinte, quando cheguei em frente a casa tomei um susto: o furo no portão era tão grande que parecia ter sido feito por um tiro de bazuca. Daria pro Jô Soares passar folgado pelo buraco. E a dona da casa veio me perguntar:

- Oi moço. Precisa entrar?

- Não, senhora. Dá pra ver de fora.

- Se precisar, eu abro o portão.

- Não, não precisa.

O pior é que isso já faz 2 anos. E todas as vezes que eu vou fazer leitura lá, ela me pergunta se dá pra ver de fora.

Por que será que ela não acredita em mim?

Pra completar, hoje, uma criança chegou pra mim na rua e disse assim:

- Moço, você vai cortar meu relógio?

- Não. Eu não corto relógio. Eu só faço leitura.

- Mas, porque os “seus amigos” vivem cortando o relógio da minha casa?

- Eles só cortam se não pagar a conta.

- Tá louco! Vocês só pensam em dinheiro!

Virou as costas e foi embora.

Tô começando a achar que o verdadeiro sem noção dessa história toda sou eu, que continuo nessa vida de leiturista.

Ai!

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Sem Noção - 2




Há alguns meses, fui ao casamento de um amigo de infância chamado Haroldo.

Foi um dia muito especial, não apenas por ser o casamento de um dos meus grandes amigos, como por ter sido uma ocasião em que foi possível reunir grande parte da nossa turma de infância e adolescência, amigos que jogaram basquete juntos por muito tempo e que não se viam também havia muito tempo.

O casamento transcorria como de costume. Os noivos cumprimentaram os padrinhos e os pais emocionados, chorando mais do que atacante norte-coreano na hora do hino.

Oscar, Danianderson, eu e nossas respectivas companheiras estávamos sentados no primeiro banco, próximo ao altar. Batemos milhares de fotos, fizemos inúmeros comentários humorísticos sobre tudo e todos e rimos muito, como sempre.

Mas, o ápice da cerimônia, aconteceu quando, os padrinhos começaram a descer do altar.

Um casal de padrinhos da noiva e um do noivo parava ao lado deles, o fotógrafo batia 400 fotos e eles desciam.

Quando o último casal de padrinhos parou pra foto, o Oscar, aquela pessoa sem-noção, levantou no meio da igreja e gritou:

- Oh, Haroldo! Depois vamos juntar a galera pra jogar um basquete!

Todo mundo riu. Menos o padre.

Muita gente pode achar que isso é um absurdo, um desrespeito à cerimônia, à igreja.

Mas, se a pessoa parar pra pensar bem, perceberá que o que a gente carrega nessa e dessa vida não é a etiqueta, e sim os momentos de prazer, diversão, alegria como esse.

Tenho certeza que esse grito do Oscar vai ser lembrado pra sempre.

No meu casamento não aconteceu nada desse nível na igreja.

Aconteceu na lua-de-mel.

Dani e eu fomos pro litoral e ficamos num sobrado. Certo dia, estávamos na cozinha, que ficava no andar de baixo, preparando um..., uma..., bom, isso não importa, o que importa é que estávamos em lua-de-mel, logo, dá para imaginar a situação!

O celular da Dani começou a tocar no quarto, lá no andar de cima. Estávamos muito ocupados pra atender, mas, ele tocou tanto que já estava nos desconcentrando. Parou.

Dois minutos depois, ouvimos o som de mensagem.

Resolvemos dar uma olhada no telefone dela.

Ligação perdida: Tais.

Mensagem: “Oi, Dani! Tudo bem? Acabou de chegar um monte de caixas aqui na loja. Aproveita bem aí. Ah, traz alguma lembrança pra mim. rs! Beijos! Tais.”

Tais era a menina que trabalhava na mesma loja de importados que a Dani trabalha. Pessoa bem legal. Mas, totalmente sem-noção. Ligar pra alguém em lua-de-mel?  E a mensagem, então: “Acabou de chegar um monte de caixas aqui...

Fiquei com vontade de mandar uma mensagem pra ela assim: “Caixas é? Que coincidência! Pois a lembrança que vamos te levar é justamente um caixão. Pode ter certeza de que você vai precisar se não parar de nos ligar!”

Pena que a Dani não deixou.