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sábado, 30 de julho de 2011

A Carona


A sede da empresa onde estou trabalhando fica no final de uma longa avenida. Como a maioria dos funcionários usa uniforme e também quase todos têm que passar por essa avenida, é muito comum que pessoas que se deslocam até lá à pé, como eu, acabem pegando carona no meio desse trajeto.

Dias atrás, estava indo para a empresa quando um senhor de bigodes parou o carro do outro lado da avenida e gritou:

- Tá indo pra lá?

- Sim. – respondi.

Atravessei a avenida, entrei no carro, botei o cinto e o homem iniciou a conversa dizendo que tinha uma reunião importante lá.

- Escuta, que horas você entra no trabalho?

- Bato ponto as 7:30h.

- E dá tempo?

- Ah, sim. Já estou acostumado a andar rápido todos os dias. Em quinze minutos dá tempo de sobra de chegar lá.

Passamos em frente a empresa que trabalho. Mais adiante, ficava o retorno obrigatório.

Mas, o homem passou também pelo retorno...

Comecei a achar aquilo muito estranho. Seria ele um sequestrador mandado pela minha ex-mulher?

- Olha, o senhor tá indo pra onde?

- Tô indo pra lá.

Meu Deus! Onde era o “pra lá” dele? Comecei a olhá-lo disfarçadamente. Não tinha cara de sequestrador. Nem de maníaco sexual com fetiche por uniformes. O que estava acontecendo então?

Já estávamos entrando na pista.

- Mas, o senhor vai “pra lá” por aqui?

- Sim. Mais adiante tem um retorno.

- Mas, nós acabamos de passar por ele.

O homem torceu o bigode. “Pronto!” – pensei – “Agora ele vai sacar a arma e dizer que é um assalto.”

Mas, peraí! Quem tava de carro era ele. Se fosse pra rolar um assalto quem teria que assaltar era eu, que estava a pé. Tinha alguma coisa errada ali. De repente ele perguntou:

- Mas, você tá indo pra onde?

- Eu tô indo pra Elektro (que ficava bem lá atrás, na grande avenida). E o senhor?

- Eu tô indo pra Mercotubos (que ficava bem lá na frente, na Rodovia Dom Pedro).

Depois de dar uma boa gargalhada, o homem disse:

- Puxa vida! Confundi o seu uniforme com o do pessoal que trabalha na Mercotubos.

Provavelmente, o uniforme deles deve ser amarelo gema ou vermelho sangue.

E o meu é azul marinho.

Não é a primeira nem a última vez que alguém me confunde com um profissional de outra área. Já me chamaram de leiturista da água, carteiro, policial, vendedor de zona azul e até juiz de futebol.

Ser leiturista tem dessas coisas. Ainda bem. Pois rende boas histórias!