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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Mania de Perseguição



(sugestão do Jander: histórias do tempo de criança)






Quando eu tinha uns 12 anos, ia todos os dias ao clube nadar, jogar basquete e encontrar os amigos.

Nessa época, havia um bando de caras que ficavam sentados na esquina da minha casa e não iam com a minha cara. Especialmente um deles (que eu prefiro ocultar o nome, pois, não sei que fim levou o traste).

O fato é que todas as vezes que eu tinha que passar na esquina, eu escolhia o lado em que eles não estavam sentados.

Só que depois de muito, mas, muito tempo, os “espertalhões” perceberam a minha tática, dividiram a turma e sentaram-se nos dois lados da esquina. Quando eu fui passar pra ir embora pra casa, escolhi o lado que me pareceu menos pavoroso, rezei uns 12 terços em 20 segundos, abaixei a cabeça e fui.

Um deles, o que não ia com a minha cara mais que os outros, esticou as pernas pra eu tropeçar. Por sorte, eu estava atento e pulei as pernas dele.

O tempo foi passando e o moleque foi provocando. Ele fazia coisas como passar em frente a minha casa e atirar pedras na janela da sala.

Um dia, eu estava indo pra casa e ele e mais um molequinho estavam jogando bola na rua. Quando eu passei, ele deu uma “bicuda” na bola que explodiu na parede do lado da minha cabeça.

Meu sangue ficou tão quente que se eu segurasse um boi pelo chifre, em poucos minutos ele se transformaria num churrasco. E bem passado!

Virei pro maloqueiro e berrei sem pensar:

- O que que é? O que que você quer comigo? Caralho!!!

Ele se assustou com a minha reação. E pra falar a verdade, eu também!

- É, você passa aqui e nem cumprimenta a gente!

- Se eu olho pra cumprimentar, vocês dizem que eu tô encarando, se eu não olho, vocês dizem que eu sou metido! Resolve logo o que vocês querem porque eu não sou palhaço!

Aí, o bestão “mijou pra trás”.

- Não, sabe o que é? É que eu vou pegar aquele amigo seu que joga vôlei e é muito metidinho!

- Beleza! Então você mesmo vai falar isso pra ele. Tchau!

Nunca mais o “malandrão” mexeu comigo. Aliás, nem a turma dele também.

Ah, e o amigo ao qual ele se referia não jogava vôlei, jogava basquete. Sabe quem era? O Oscar. (Sim, ele jogava basquete!) E o mais engraçado é que o Oscar nem sabia da existência desse cara. Vai entender...

Por causa dessa fase de perseguição dos caras da esquina, eu fiquei meio neurótico com esse negócio das pessoas olharem pra mim.

Quando eu tinha uns 14 anos, havia um tiozinho que todas as vezes que eu passava, ele ficava me encarando!

E não era um olhar comum, era um olhar muito diferente do que eu já havia visto antes. Muito sinistro!

Comecei a desviar do tiozinho, também.

Uma vez, eu e o Oscar fomos andar de bicicleta até um lugar aqui da cidade onde as pessoas que saltam de Asa Delta da Pedra Grande pousam. Quando fui à padaria pra comprar um refrigerante, ouvi alguém dizer:

- Ô, menino!

“Ah, não! Era ele!”

- Eu?

- É! Faz um favor pra mim? Compra cigarro na padaria.querendo me dar duas notas de 50 reais.

- Eu sou menor de idade. Porque o senhor mesmo não compra?

- Porque o dono não quer vender pra mim!

- Ah, sinto muito!

Fomos embora e o Oscar me perguntou por que eu não quis comprar cigarro pro tiozinho.

- Primeiro porque eu sou menor. Segundo, porque aquele tiozinho me olha de um jeito estranho. Sei lá, acho que ele é viado!

O tempo foi passando e um dia, colocaram um telefone público de concreto na esquina de casa. Eu estava subindo a rua e na minha frente ia o tiozinho de olhar estranho. De repente, o homem deu uma baita cabeçada no concreto e gritou:

- Ai, meu Deus do Céu!

“Aposto que tá bêbado. Bem feito!”- pensei.

À noite, eu fui comentar com a minha vizinha o que havia acontecido:

- Ô Sirlei, sabe aquele homem que fica parado na esquina?

- Sei.

- Então, hoje ele tava subindo a rua e deu uma puta cabeçada no orelhão de concreto.

- Coitado!

- Coitado nada! Devia tá “chapado”. Não gosto daquele homem, ele fica encarado a gente. Foi merecido!

Nesse momento, minha vizinha começou a “rachar o bico” de dar risada e eu perguntei:

- O que foi?

- Ai, Paulo Sergio, você tem certeza que o homem fica te encarando?

- Absoluta! Por quê?

- Porque ele é cego!

Na verdade, o cego era eu!

Vivendo e aprendendo!