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quinta-feira, 24 de junho de 2010

Estranhos - 2

Dias atrás, fui fazer leitura da luz num bairro humilde aqui da cidade. Num certo momento, parei em frente a uma casa que tinha o relógio de luz do lado de dentro e bati palmas.

Silêncio. De repente, percebi que um olho me olhava pela fresta. Então, eu disse:

- Bom dia!

O olho, ou melhor, o dono dele, me respondeu:

- Bom dia! O que você quer?

- Eu vim fazer a leitura da luz, senhor.

- Ah, bom! Então pode entrar – disse o homem aliviado abrindo o portão. – Eu pensei que fosse um “irmão” da igreja.

Quando eu entrei, percebi que o senhor que me atendeu estava sem camisa (com uma barriga de dar inveja a Lua) e vestido apenas de cueca roxa frouxa e desbotada.

Fiquei pensando o que significava aquilo tudo: quer dizer que só porque eu não era “irmão” da igreja dele, eu merecia ter aquela visão do inferno! Isso é preconceito religioso!

Enquanto eu fazia a leitura, outra pessoa bateu no portão. Lá foi o homem de novo:

- Quem é?

- Bom dia. O senhor quer comprar CD?

- Não, obrigado.

Aí, o senhor virou pra mim e disse:

- Até parece que eu vou comprar esse tipo de CD.

Aí, eu pra concordar:

- Ah, o senhor tá certo. CD pirata não dá, né?

- Não, não é porque é pirata, não. É porque eu não escuto qualquer tipo de música. Só as que tocam na minha igreja. Quando eu era do mundo, eu ouvia.

Quando uma pessoa perto de mim usa essa expressão “Quando eu era do mundo”, me dá vontade de perguntar:

- Por quê? O senhor não é mais do mundo?

Mas, vai que a pessoa responde:

- Não. Eu morri e virei morto-vivo.

Aí, pra mudar de assunto, eu pergunto qualquer coisa:

- Que dia é hoje?

- Sexta-feira 13! Prazer, meu nome é Jason.

E com um facão, ele decepa a minha cabeça.

Mas, a conversa também pode correr pra outro desfecho:

- Quando eu era do mundo...

- Por quê? O senhor não é mais do mundo?

- Não, aproveitei que fui abduzido por extraterrestres e me naturalizei marciano. Agora eu tenho dupla mundialidade.

Não era o caso do senhorzinho.

No mesmo dia, bati num sobrado e uma mulher da janela do segundo andar respondeu:

- Só um minuto.

De repente, uma minúscula janelinha se abriu no portão da garagem, onde ficava o relógio de luz, e a mulher apareceu perguntando:

- O que é, moço?

- Bom dia! Eu vim marcar a leitura da luz.

- Xiiiiiiii! Moço! Só que o meu marido levou a chave! É que esses dias eu ameacei de ir embora de casa, e agora, ele tá me trancando aqui quando vai trabalhar.

Dito isso, a mulher caiu na gargalhada. Mas, o mais engraçado é que ela falava sério.

Tive que enxergar a leitura daquela pequena janelinha.

O pior de tudo é que a mulher, que Deus me perdoe (como diria a minha tia), era tão feia, mas, tão feia, que nem o Feio que trabalha comigo teria coragem de encarar.

Hoje, fui fazer leitura na cidade de Perdões. Bati numa casa e um homem apareceu.

- É leitura da luz?

- É.

Aí, quando veio abrir o portão, ele me disse assim:

- Eu deixei o portão trancado por causa de uma pessoa aí... – e apontou pra dentro de casa. – Você entendeu, né? Não preciso nem explicar!

Eu concordei com a cabeça, mas, juro que não tava entendendo nada. Até me lembrar da história anterior, do homem que trancou a mulher em casa, e então, tudo fez sentido.

Se aquela tia solteirona soubesse desse método de trancar a pessoa em casa, ela nunca mais faria simpatias intituladas: “Como segurar um homem”.