Dias atrás, fui fazer a leitura da luz de duas casas que ficam em cima de uma academia.Quando cheguei à porta de entrada dessas casas, que fica ao lado da academia, havia dois recados.
O primeiro: “Senhores leituristas de água e luz, para fazer a leitura, favor pegar a chave da porta na academia ao lado. Obrigado.”
E com a mesma letra, o segundo dizia assim: “Senhor carteiro, a campainha não funciona. Para entregar correspondências, favor subir as escadas. A porta está aberta. Obrigado.”
Aí eu fiquei pensando: “O que é a tecnologia, não!”
Aquela porta deve ter um sensor de identificação de última geração. Quando chega o carteiro, ela abre pra que ele entre e entregue suas correspondências. Quando é o leiturista, ela trava e o “bestão” tem que pedir a chave na academia ao lado.
Mas, sabe de uma coisa? Acho que aquela porta devia estar com defeito, porque quando eu girei a maçaneta ela abriu. Ou seja, ela me confundiu com o carteiro.
“Até a porta, meu Deus!”
O pior aconteceu na cidade de Perdões.
Estava fazendo leitura em uma rua, quando quatro garotas de uns 15 anos mais ou menos se aproximaram falando alto, rindo, e me chamando de tio.
- O tio, cê vai marcar a luz dessa rua toda?
- Vou!
- Cê pode fazer um favor pra gente?
- Depende. Que favor?
- É só entregar uma cartinha naquela casa amarela, pro João.
- Em nome de quem?
- Ele sabe de quem é.
Cheguei a tal casa, enfiei a mão pelo vão do portão, abri a tampa do relógio de luz, marquei, fechei a tampa e quando estava colocando a carta na caixinha do correio, uma mulher apareceu à janela.
- Oi – eu disse. – É aqui que mora o João.
- É! – respondeu a mulher.
- É uma carta pra ele.
- Mas você não é medidor de luz?
- Sou. Foi uma menina que pediu pra eu entregar.
Fui embora e quando olhei pra trás, a mulher estava com a carta na mão, no meio da rua, parecendo procurar pelas meninas que já haviam sumido.
No mês seguinte, quando cheguei para marcar a luz, havia um cadeado na porta do relógio de energia.
Toquei a campainha, bati, chamei. A casa parecia vazia.
No mês seguinte a mesma coisa.
No terceiro mês, quando eu batia palma em mais uma tentativa de ser atendido, uma mulher que passava na rua, me disse:
- Moço, aí não mora mais ninguém, já faz um tempo.
- Aé? E a senhora sabe quem é o proprietário da casa?
- Ah, é o seu João do açougue da rua de baixo. Mas, o açougue tá fechado, o seu João tá internado.
- Ele tá doente?
- Depressão. Ele ficou muito mal depois que a mulher foi embora.
- Sério?
- Sério! Você acredita que uma vadia mandou uma carta de amor pra ele e a mulher dele pegou? E ele ainda teve a cara de pau de dizer que não tinha uma amante. Velho sem vergonha!
Nesse momento, saiu um rapazinho da casa ao lado e a mulher o cumprimentou:
- Oi João, você tá bom?
Foi então que eu percebi que a casa que eu entreguei a cartinha, não era “bem” amarela, era caqui. Amarela era a casa vizinha, de onde saiu o rapaz também chamado João.
E depois eu ainda reclamo quando o pessoal confunde o meu uniforme de leiturista (caqui) com o do pessoal do correio (amarelo).