(sugestão do Ciborgue: Pequeno Pônei)
Como o Oscar comentou no blog dele, na postagem
"Premonição", a nossa turma de adolescência era a mais careta de Atibaia.
Éramos todos praticantes de esportes, não fumávamos, não bebíamos, não usávamos drogas, nem transávamos.
Esta última, não por opção, é claro!
Mas, algumas coisas mudaram. Quando fiz 19 anos, comecei a beber cerveja. Moderadamente.
Já o Oscar se mantém abstêmio até hoje.
Como sempre falamos muita besteira, algumas pessoas costumavam nos dizer:
- Um dia, queria ver vocês dois bêbados. Deve ser muito engraçado.
Engraçado, é?
Resolvemos fazer um pacto: um dia iríamos tomar um porre juntos.
E isso aconteceu quando fui passar uns dias na casa dele em São Paulo.
Cheguei na sexta-feira. No sábado, fomos assistir a uma peça. Na saída do teatro, encontramos a amiga Fernanda que nos acompanhou a nossa aventura etílica.
Sentamos num lugar meio isolado, no segundo andar de um bar.
Começamos a conversar e tomar cerveja. Certa hora, fui ao banheiro e quando voltei o Oscar estava com uma caipirinha na mão.
“Vai dar merda!” – pensei.
Imagina uma pessoa que não estava acostumada a beber nem cerveja e resolveu misturar com outra bebida ainda mais forte. Não passou muito tempo e o Oscar começou a “filosofar”.
Por que será que bêbado é assim? O cara não tá aguentando nem ficar de olhos abertos e quer discutir os grandes problemas da humanidade.
Quando a ponta do meu nariz amorteceu e eu já não conseguia ouvir o que eles diziam, era o sinal de que já estava na hora de parar de beber e descansar antes de irmos embora.
O problema é que eu precisava muito ir ao banheiro de novo.
Enquanto o Oscar e a Fernanda conversavam, silenciosamente eu tentava traçar uma estratégia que me levasse direto ao meu objetivo sem desequilibrar.
Mirei bem a porta do banheiro. Imaginei que lá tivesse um alvo e me lancei feito um dardo.
Certeiro!
Ainda bem que o corredor estava vazio e nenhum garçom apareceu na minha frente.
Quando voltei, o Oscar estava de cabeça baixa e a Fernanda parecia estar consolando ele.
“Pronto! Aposto que já bateu a depressão pós porre. Bêbado é uma merda mesmo e...”
De repente eu percebi uma gosma (que me lembrou muito o Geléia dos Caça-Fantasmas) bem embaixo do Oscar. Ele havia vomitado!
O pior é que surgiu um garçom do nada, com um rodo e um paninho na mão, querendo limpar logo o chão. Só que o Oscar ainda estava vomitando. No intervalo entre um “jato” e outro, ele disse pro garçom:
- Será que dá pro senhor limpar daqui a pouco? Eu ainda não terminei!
O garçom foi embora. Provavelmente ficou com medo do Oscar vomitar na cara dele. Eu então sugeri que o Oscar vomitasse na janela. Pra ficar menos chato.
Lembrando que estávamos no segundo andar, foi uma sorte não ter passado ninguém lá embaixo.
Nós três bebemos muito naquela noite. Mas, a Fernanda parecia que não tinha bebido nada! Era como se ela tivesse nascido com 3 fígados.
Quando saímos cambaleantes do bar, tive a sutil impressão de que estávamos sendo observados. E observados por pessoas bastante alegres, pois riam um bocado.
Fomos embora a pé e vejam vocês como os valores estão mudados hoje em dia: a Fernanda nos acompanhou até a portaria do prédio e depois foi embora, sozinha!
- Fernanda, você tem certeza de que não quer ficar? – o Oscar perguntou.
- Não, não. Tá tudo bem! Eu ainda vou para uma festa.
Aí eu tive certeza de que ela tem 3 fígados.
No dia seguinte, acordei muito cedo com um barulho vindo do banheiro. Levantei e tive a sensação de que alguém tinha jogado uma bigorna na minha cabeça, como acontece nos desenhos. Que ressaca!
Entrei no banheiro e vi o Oscar ajoelhado na privada vomitando. Ele virou pra mim e disse:
- O Cazuza tinha razão naquela última parte da música “Down em mim”.
“E me lembrar, sorrindo, que o banheiro
É a igreja de todos os bêbados...”
Ele estava bêbado, vomitando, de ressaca, ajoelhado e jurando nunca mais beber.
Sacaram?
Quando ele finalmente parou de vomitar, eu descobri que estava com diarréia.
Começamos a fazer um revezamento naquele banheiro. A descarga foi acionada tantas vezes que deve ter faltado água no prédio por um mês.
Como o Oscar não parava de passar mal ele pediu pra mim:
- Paulo, pelo amor de Deus, cara, vai na farmácia comprar alguma coisa pra eu tomar.
Juro que fiquei com vontade de chorar. Imagina, eu em São Paulo, sem conhecer lugar nenhum, a pé e com piriri, tendo que procurar uma farmácia.
Mas, como eu estava menos ruim do que ele, eu fui. A farmacêutica disse:
- Olha, se ele tá do jeito que você me contou, é melhor você levá-lo ao médico.
“Só se eu vestir uma fralda geriátrica e levá-lo de cavalinho” – pensei.
Comprei o velho e bom Engov e o indispensável Epocler.
Nesse dia, o Oscar nem almoçou. E eu encarei um macarrão com molho meio frio.
E passamos o resto da tarde dentro do apartamento, quietinhos e assistindo ao filme “Moulin Rouge”.
Depois disso, o Oscar nunca mais vomitou, pois, nunca mais bebeu.
E eu, nunca mais tive diarréia, pois, nunca mais comi o lanche daquele bar.
Vocês não estavam achando que a culpa da minha diarréia foi da bebida, né? Foi do lanche, claro que foi!
Ou como diria o meu pai:
- A culpa é da azeitona!